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As crianças têm seus sonhos. Fui criança e sei o quanto sonhei. Aliás, continuo sonhando. Mas meus sonhos já não se limitam aos encantamentos da infância, tampouco se deixam conduzir por um mundo cada vez mais dominado pelo cifrão, pelo consumismo e pelas desigualdades sociais.
Sonho com uma sociedade em que a leitura e a educação sejam instrumentos de libertação. Sonho com uma transformação que nasça da equidade e caminhe em direção à igualdade. Não apenas a igualdade proclamada nos discursos, mas aquela que assegura a cada ser humano o direito de ser, de existir e de viver com dignidade.
Não me refiro ao mundo encantado da imaginação natalina, onde as luzes brilham, os presentes se multiplicam e a felicidade parece estar ao alcance de todos. Refiro-me ao mundo real, marcado por profundas contradições, no qual somente a educação, a consciência crítica e o compromisso coletivo podem promover transformações verdadeiras.
Precisamos ser agentes dessa transformação. Precisamos compreender que a esperança não pode permanecer aprisionada aos símbolos de uma celebração. É necessário transformar as luzes do Natal em uma luz no fim do túnel, capaz de iluminar os caminhos daqueles que vivem à margem das oportunidades.
As luzes natalinas, é verdade, exercem sobre nós um fascínio quase hipnótico. Encantam os olhos, despertam lembranças e alimentam fantasias. Entretanto, quando esse encantamento nos distancia da realidade, corremos o risco de substituir a reflexão pela contemplação, a solidariedade pelo consumo e a ação pela indiferença.
Enquanto as luzes das vitrines anunciam a chegada do Natal, quantas crianças permanecem invisíveis aos olhos da sociedade? Quantas sonham não com brinquedos sofisticados, mas com alimento, escola, moradia, afeto e oportunidades? Quantas aguardam, silenciosamente, uma esperança que não venha embrulhada em papel de presente?
O verdadeiro espírito natalino não deveria nos conduzir à inércia, mas despertar nossa capacidade de questionar, de agir e de romper as mordaças impostas pela desigualdade, pelo individualismo e pela injustiça social.
É preciso que nosso pedido de Natal venha das profundezas da consciência, das veias que simbolicamente carregam o vermelho da paixão, da coragem e da luta. Não uma luta pelo poder de dominar, mas pelo poder de transformar. Pelo direito à sobrevivência, à dignidade e à construção de uma sociedade mais humana.
Nesse cenário, a figura do bom velhinho, transformada em um dos maiores símbolos do consumo, parece ter roubado a cena daquele que deveria ocupar o centro da celebração: o menino Jesus.
E não falo de um Jesus idealizado segundo padrões europeus, de olhos azuis e distante da realidade histórica de seu povo. Refiro-me ao Jesus que desafiou estruturas de poder, acolheu os marginalizados, confrontou injustiças e anunciou uma mensagem de amor, partilha e libertação.
Um Jesus cuja trajetória pode ser compreendida também como a de um homem profundamente comprometido com os excluídos, com os pobres e com aqueles a quem a sociedade negava voz e dignidade. Uma figura que, em sua dimensão humana e social, permanece atual diante das contradições de um mundo ainda marcado pela concentração de riquezas, pelos conflitos e pelas desigualdades.
Talvez seja justamente essa dimensão transformadora de sua mensagem que tantas vezes se perde entre os enfeites, as vitrines iluminadas e os interesses comerciais que passaram a dominar as comemorações natalinas.
Não pretendo negar a beleza do Natal, tampouco retirar das crianças o direito ao encantamento. Pelo contrário. Quero que elas continuem sonhando, sorrindo e acreditando na possibilidade de um mundo melhor. Mas desejo, sobretudo, que seus sonhos encontrem caminhos concretos para se realizarem.
Que o Natal não seja apenas uma celebração passageira, mas uma oportunidade de renovar nosso compromisso com a coletividade. Que a solidariedade ultrapasse os gestos ocasionais e se transforme em prática cotidiana. Que a educação deixe de ser privilégio e se consolide como direito efetivo de todos.
Precisamos de um Natal comunitário, construído não apenas com luzes e presentes, mas com consciência, justiça social, respeito às diferenças e oportunidades compartilhadas.
Um Natal que resgate a essência do menino libertador e celebre a vida através dos olhos inocentes das crianças, que continuam esperando dos adultos muito mais do que promessas.
Afinal, de que valem tantas luzes iluminando nossas cidades se ainda permitimos que tantas vidas permaneçam mergulhadas na escuridão da exclusão?
Que saibamos transformar o encantamento em consciência, a esperança em atitude e os sonhos em possibilidades reais.
Porque o Natal que verdadeiramente desejo não é aquele que apenas ilumina as ruas, mas aquele que ilumina consciências, rompe desigualdades e abre caminhos para um mundo mais justo, humano e solidário.
E que as crianças continuem sonhando.
Mas que nós, adultos, tenhamos a coragem de transformar esses sonhos em realidade.